Andre Sak
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Eleições 2026 · Câmara dos Deputados

O Senado anda junto com a Câmara, mas não antecipa a bancada

O voto para o Senado acompanha de perto o voto para a Câmara em todas as nove eleições de 1990 a 2022 e, ainda assim, não torna mais certeira nenhuma estimativa de bancada. O que torna é corrigir a bancada atual por quem volta à urna. Dados na posição de 01/10/2026.

  • 5,9 cadeirasé o erro por partido da estimativa que ficou de pé, medido nas eleições de 2018 e 2022, que ela não tinha visto
  • 61%das cadeiras da Câmara em 2022 saíram de estados onde o partido não tinha candidato ao Senado
  • 2 em cada 3deputados que tentam a reeleição voltam, e é essa conta que corrige a bancada atual (1998 a 2022)

A estimativa de bancada para a eleição de 4 de outubro de 2026

Existe relação entre as duas Casas, e é forte: nos resultados observados de 1990 a 2022, a fatia de votos de cada partido para o Senado acompanhou a da Câmara com semelhança de +0,83 a +0,96 em cada uma das nove eleições, numa escala em que 1 seria coincidência perfeita. Ela não antecipa a bancada: com a pesquisa final do Senado, que é o insumo disponível antes da urna, a estimativa erra 6,6 cadeiras por partido — contra 6,4 de simplesmente repetir a bancada atual, diferença que não se distingue de acaso em 45 pares de partido e eleição. O que o voto para o Senado dá é a direção de quem sobe e de quem desce, não o tamanho da bancada.

A estimativa vem da base que ficou de pé no teste: a bancada atual corrigida por quem volta à urna, com a margem de erro medida nas eleições passadas. É essa correção que reduz o erro, de 6,4 para 5,9 cadeiras por partido. Estar na chapa do governador que lidera as pesquisas também entra na conta, com peso pequeno, mas acrescenta no máximo 0,08 cadeira, que não se distingue de zero; conforme o que se atribui aos estados sem pesquisa de governador, o erro fica entre 5,81 e 5,91, e o valor usado aqui, 5,86, vem da regra de valor neutro. A projeção do DIAP erra 4,9. A faixa é larga porque é o tamanho da incerteza medida: em 82% dos 87 casos de 2010 a 2022 o resultado caiu dentro de uma faixa calculada assim. Como os 414 deputados de 2022 que voltaram a se registrar estão distribuídos quase na proporção da bancada atual, a correção desloca 11 cadeiras na Tabela 1; as maiores mudanças são Republicanos (+4), União Brasil, PSD e Podemos (+2 cada), PP e MDB (−2 cada).

Tabela 1 Cadeiras na Câmara em 2026, por unidade que disputa o quociente
Partido ou federação EstimativaDeve ficar entre Bancada atualDIAPPlano Político
União Progressista9882 a 11498107,091
PL9781 a 1139890,597
Brasil da Esperança8167 a 958287,084
PSD5039 a 614851,550
Republicanos4635 a 574248,051
MDB3626 a 463835,034
Podemos2920 a 382726,524
PSDB Cidadania1912 a 261913,016
PSB1610 a 221719,021
PSOL Rede148 a 201617,513
PDT94 a 14911,08
Avante62 a 1053,57
Renovação Solidária62 a 1078,57
Novo41 a 753,57
DC10 a 31——
Missão10 a 311,03
Total513 513522,5 513

Disputam o quociente como um partido só as federações União Progressista (União Brasil e PP), Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV), PSDB Cidadania, PSOL Rede e Renovação Solidária (PRD e Solidariedade); na urna a cadeira vai para os mais votados do conjunto. A soma do DIAP fecha em 522,5: há divergência entre esse total e as 526 cadeiras que a própria publicação registra, mantida como está. A estimativa aqui e a do Plano Político fecham nas 513 cadeiras da Câmara, e a última delas está em empate: pela regra de maiores restos ela cabe ao PL (que fica com 97 ou 98) ou ao DC (1 ou 0), conforme um detalhe de arredondamento.

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, dados abertos de candidaturas e votação; Câmara dos Deputados, dados abertos; DIAP e Plano Político (modelo v1.00), projeções de 25/09/2026.

Quem volta à urna

A correção que mais reduz o erro é a mais simples: contar quantos deputados tentam de novo. Nas sete eleições de 1998 a 2022, abertas na Tabela 2, a taxa média é de 66,9% dos que tentaram, sem nenhuma fugir da faixa de 55,8% (2006) a 76,1% (2014). Para 2026, 414 dos 512 eleitos em 2022 se registraram de novo e 131 (32%) mudaram de partido; mantida a taxa média, a estimativa é de que 277 voltem.

Tabela 2 Deputados que tentaram a reeleição e quantos voltaram, por eleição
EleiçãoTentaramVoltaram TaxaTrocaram de partido
199827317764,8%35,2%
200232823772,3%28,0%
200640322555,8%37,0%
201032222569,9%25,5%
201431423976,1%19,7%
201838724162,3%41,9%
202242628667,1%51,2%
2026414— —32%

Tentaram é quem foi eleito na eleição anterior e voltou a se registrar; voltaram é quantos desses se elegeram de novo; a linha de 2026 traz só o registro. O casamento entre eleições é feito pelo título de eleitor e confere com o registro do próprio Tribunal em 97,0% dos casos de 2002, 98,0% de 2006 e 94,7% de 2010.

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, dados abertos de candidaturas e votação, 1994 a 2026.

O que sustenta a estimativa: nove eleições, 1990 a 2022

Duas medidas respondem a perguntas diferentes: se partido grande no Senado é grande na Câmara — e a resposta é sim, sempre — e se o partido que cresce no Senado cresce na Câmara, que é o que serve para estimar e mudou com o tempo.

Semelhança de tamanho e semelhança de movimento

O Gráfico 1 separa as duas. A semelhança de tamanho fica acima de +0,83 em todas as nove eleições, e diz pouco: partido grande é grande nas duas Casas. A semelhança de movimento foi fraca e até negativa até 2006 — em 1998 ela chegou a -0,47, ou seja, quem subiu numa Casa tendeu a cair na outra — e só ficou forte nas duas últimas eleições, quando as coligações proporcionais acabaram: passou de +0,33 no conjunto das eleições com coligação, até 2018, para +0,83 em 2022. O sinal existe, portanto, mas a série em que ele é forte tem duas eleições.

Duas séries de semelhança entre Senado e Câmara, de 1990 a 2022
Gráfico 1 Semelhança entre o voto para o Senado e o voto para a Câmara, por eleição

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, dados abertos de candidaturas e votação, 1990 a 2022.

O alcance de cada sinal

Em 2022, 314 das 513 cadeiras — 61% — foram conquistadas em estados onde aquele partido não tinha candidato ao Senado; sobre essas, o Senado nada diz. O que ele capta é o partido em forte movimento, e 2022 mostra o alcance e o limite disso: o PL fez 99 cadeiras; na ausência de qualquer sinal do Senado a estimativa dava 48, com o resultado do Senado subia para 88 e com a pesquisa final — o que se tem antes da urna — ficava em 71, perto do 75 da bancada da véspera e do 75 do DIAP: aponta a direção certa e erra o tamanho.

O Gráfico 2 põe esse alcance ao lado do da chapa de governador, que fala de 87,1% das cadeiras de 2022 contra 39,6% do candidato ao Senado do próprio partido. Ainda assim a chapa não vira previsão sozinha: a fatia que ela conquista não se reparte de modo estável entre os partidos que a compõem, e prever essa divisão pela eleição anterior erra 10,9 pontos percentuais — por isso ela entra com peso pequeno, e no teste não acrescenta nada que se distinga de zero sobre a correção por quem volta à urna.

Alcance da chapa de governador e do candidato ao Senado, 1998 a 2022
Gráfico 2 Cadeiras da Câmara cujo partido tinha, no estado, chapa de governador ou candidato próprio ao Senado

A eleição de 1994 fica fora: o registro de composição das coligações daquele ano é incompleto na fonte.

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, dados abertos de candidaturas e votação.

O teste em eleições que a estimativa não tinha visto

Cada base foi montada com o que se sabia antes da urna de 2018 e de 2022 e comparada com o resultado real; a Tabela 3 mostra o erro de cada uma. Trocar o resultado do Senado pela pesquisa final custa 0,88 cadeira e apaga o ganho: a liderança da pesquisa final de Senado se confirmou em 28 de 45 casos (62%) nessas duas eleições, e a perda se decompõe em 0,17 cadeira por haver estado sem pesquisa e 0,71 pelo erro da própria pesquisa onde ela existe — quase tudo é precisão da entrada, não cobertura. A de governador acerta mais — 26 de 34 (76%) —, mas nem assim melhora a estimativa: o que reduz o erro é contar quem volta à urna.

Tabela 3 Erro de cada base nas eleições de 2018 e 2022, em cadeiras por partido
Base20182022 Erro por partidoCadeiras no lugar errado
Projeção do DIAP4,885,004,9461 e 50
Bancada atual corrigida por reeleição e pela chapa do governador à frente6,725,005,8684 e 50
Bancada atual corrigida por reeleição6,884,905,8986 e 49
Bancada atual corrigida pela chapa do governador à frente6,885,606,2486 e 56
Modelo com o resultado do Senado do próprio ano5,565,805,6870 e 58
Bancada atual, sem correção7,045,706,3788 e 57
Modelo com a pesquisa final do Senado6,127,006,5676 e 70
Modelo sem nenhum sinal do Senado5,648,206,9270 e 82
Repetir o resultado da eleição anterior7,7211,709,7196 e 117

Cada base projeta a eleição sem ter visto o resultado dela, e é comparada com o resultado observado em 2018 e em 2022. Erro por partido é a média das duas; cadeiras no lugar errado é quanto das 513 ficaria atribuído ao partido errado em cada uma. A vantagem da bancada corrigida (5,9) sobre a bancada sem correção (6,4) é maior que o acaso; a diferença entre as duas primeiras linhas e a distância delas para o DIAP (4,9) não são. Em 2018 faltava pesquisa de governador em estados que somavam 230 cadeiras (45,4% da Câmara), e a elas se atribui o valor neutro de 0,522, medido em 2010 e 2014.

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, dados abertos de candidaturas e votação; Câmara dos Deputados, dados abertos; DIAP.

Base, limites do método e estudos anteriores

A base cobre as nove eleições gerais de 1990 a 2022, nas 27 unidades da Federação, com o resultado proclamado à época — não a composição posterior da Câmara.

O que entra na conta

Do Tribunal Superior Eleitoral vêm os votos e as candidaturas de 1990 a 2026, inclusive o registro de 2026, fechado em 01/10/2026. Partido que mudou de nome, se fundiu ou se incorporou conta como uma única linhagem, para que a comparação entre eleições não registre como novo o mesmo partido com outro nome. As 1.461 chapas de governador de 1994 a 2022 saem da composição declarada de cada coligação, na sigla do ano; a bancada atual, dos dados abertos da Câmara; e a projeção de governador de 2026, do agregador de pesquisas, com as 27 unidades da Federação.

Limites declarados

A conta de cadeiras começa em 1998: 1990 tem atribuições que nenhuma regra de quociente reproduz e 1994 não traz a composição das coligações na fonte. A repartição segue o quociente de cada ano, mas não aplica a exigência de o candidato ter 10% dele para ocupar vaga, o que superestima partido em alta: com os votos reais, ainda deixaria 50 cadeiras no lugar errado em 2018 e 22 em 2022 — o piso do erro.

Dois outros sinais, testados e descartados

Contar apenas os deputados que voltam à urna teria acertado mais em 2018 e 2022 — 5,34 cadeiras de erro —, mas nenhuma regra conhecida antes da eleição o teria escolhido: de 2006 a 2014 o melhor era o contrário, e a vantagem só aparece quando muitas cadeiras mudam de partido no saldo — 15,8% delas em 2022, contra 4,7% em 2026, 24 deputados. Prefeitos eleitos dois anos antes previam a Câmara até 2014 e pararam em 2018, quando o que acrescentam caiu de +0,36 para +0,05; sozinhos errariam 15,81 cadeiras por partido.

Estudos anteriores

Nenhum trabalho publicado no Brasil estima a bancada da Câmara a partir do voto para o Senado: o efeito arrasto — quando o voto num candidato a cargo majoritário puxa voto para os candidatos a deputado do mesmo grupo — é estudado para governador, presidente e prefeito, e o Senado aparece sempre como destino, nunca como origem. O precedente mais próximo é a tese de Vinícius Silva Alves (Universidade de Brasília, 2019), que modela deputados eleitos por partido entre 1994 e 2018 e encontra na presença nas disputas para governador o que explica a bancada; para o Senado informa o voto, não a presença.

Fontes

  1. Tribunal Superior Eleitoral — Candidaturas e votação, 1990 a 2026. dadosabertos.tse.jus.br
  2. Câmara dos Deputados — Deputados em exercício. dadosabertos.camara.leg.br
  3. DIAP — Projeção da Câmara dos Deputados para 2026, 25/09/2026. www.diap.org.br
  4. Plano Político — Modelo da Câmara dos Deputados para 2026, 25/09/2026. www.planopolitico.com.br
  5. Alves, Vinícius Silva — Efeito coattails no Brasil. Universidade de Brasília, 2019. repositorio.unb.br/handle/10482/35681

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