Andre Sak
Portfólio

Orçamento público e situação fiscal

Radar orçamentário

Os atos do Diário Oficial, a pauta do Congresso e as séries do Banco Central, cruzados com as matérias fiscais de Valor Econômico, O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão e Correio Braziliense.

  • 82,51% do PIBfoi a dívida bruta do governo geral em julho, sétimo mês seguido de alta e maior patamar desde abril de 2021
  • R$ 18,6 bilhõesé o superávit primário efetivo previsto no PLOA 2027, com meta de R$ 73,2 bilhões
  • R$ 8,277 bilhõesfoi o déficit das estatais federais de janeiro a julho, o maior valor nominal da série do BCB, iniciada em 2002

Destaques

  • PIB do 2º trimestre cresceu 0,5% ante o 1º trimestre e 2,0% ante o mesmo período de 2025, com a economia em R$ 3,4 trilhões no trimestre (IBGE, divulgado em 1º/09/2026). O ritmo é menor que o 1,1% do 1º trimestre. O PLOA 2027, enviado em 31/08, trabalha com crescimento de 2,46% em 2027 — reduzido de 2,56% —, contra mediana de 1,5% do Focus para o mesmo ano (Correio Braziliense — impresso — 01/09/2026, pág. 8).
  • A dívida bruta do governo geral chegou a 82,51% do PIB em julho, sétimo mês seguido de alta, R$ 10,947 trilhões em valores nominais (BCB, julho/2026). É o maior patamar desde abril de 2021, quando marcou 82,62%. A alta no mês foi de 0,58 ponto percentual, e o estoque subiu R$ 137,3 bilhões. O dado saiu em cinco dos jornais de hoje — Valor, O Globo, Estadão, Folha e Correio Braziliense —, três deles na primeira página.
  • O PLOA 2027 prevê superávit primário efetivo de R$ 18,6 bilhões (0,13% do PIB), com meta fixada em R$ 73,2 bilhões (0,5% do PIB) e resultado ajustado de R$ 83,4 bilhões (0,56% do PIB), R$ 10,2 bilhões acima do centro da meta. Para o número virar realidade, o governo que assumir em 2027 terá de fazer esforço fiscal de R$ 70,6 bilhões — a distância entre o déficit de R$ 52 bilhões projetado para 2026 e o superávit proposto (Estadão — impresso — 01/09/2026, pág. 22).
  • As estatais federais acumularam déficit de R$ 8,277 bilhões de janeiro a julho, maior valor nominal da série do BCB iniciada em 2002 e alta de 49,8% sobre os R$ 5,52 bilhões de igual período de 2025 (Valor Econômico — impresso — 01/09/2026, pág. 1). Em proporção do PIB, 0,11%, nível mais alto desde 2009 (0,12%). Os Correios responderam por parte relevante, com prejuízo de R$ 5,55 bilhões no 1º semestre, e o PLOA 2027 prevê aporte de R$ 6 bilhões na empresa.
  • O setor público consolidado teve superávit primário de R$ 1,361 bilhão em julho, após déficit de R$ 55,313 bilhões em junho (BCB, julho/2026). No mês, o governo central ficou com saldo positivo de R$ 10,975 bilhões, os governos regionais com déficit de R$ 8,502 bilhões e as estatais com déficit de R$ 1,112 bilhão. Em 12 meses até julho, o déficit primário é de R$ 89,320 bilhões, ou 0,67% do PIB, ante 1,19% do PIB no acumulado até junho (Estadão — impresso — 01/09/2026, pág. 22).
  • O PLOA 2027 reserva R$ 44,8 bilhões para emendas individuais e de bancada, R$ 4 bilhões acima dos R$ 40,8 bilhões da proposta de 2026 (O Globo — impresso — 01/09/2026, pág. 19). As emendas de comissão ficaram fora do projeto e serão incluídas pelo Congresso mediante cortes em outras despesas.
  • O Bolsa Família fica sem reajuste em 2027, com R$ 157,1 bilhões reservados — abaixo dos R$ 158,6 bilhões de 2026 e dos R$ 167,2 bilhões de 2025 —, e o benefício mínimo segue em R$ 600, valor inalterado desde março de 2023 (Agência Brasil, 31/08/2026). No mesmo projeto, o gatilho do artigo 6º do arcabouço limita a despesa com pessoal a 0,6% acima da inflação em 2027, sem ganho real para ativos, aposentados e pensionistas.

Saiu no Diário Oficial

Sem ato de conteúdo orçamentário publicado na edição de 01/09/2026.

Seguem no quadro os atos mais recentes com anexo de programação orçamentária, todos de julho:

  • Medida Provisória nº 1.381, de 30 de julho de 2026 (DOU de 31/07/2026) — crédito extraordinário de R$ 3,5 bilhões em favor do Ministério de Minas e Energia, na Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Não há cancelamento: é despesa nova, fora da meta de resultado primário, sem órgão perdedor a nomear.
  • Medida Provisória nº 1.380, de 23 de julho de 2026 (DOU de 23/07/2026) — crédito extraordinário de R$ 3,3 bilhões, também em favor do Ministério de Minas e Energia, na ANP. Igualmente sem cancelamento e fora da meta. Somadas, as duas MPs abriram R$ 6,8 bilhões para a mesma unidade em oito dias.
  • Portaria GM/MPO nº 323, de 28 de julho de 2026 (DOU de 30/07/2026) — crédito suplementar de R$ 273,7 milhões. Ganham o Ministério da Cultura – Administração Direta, R$ 198,5 milhões (Ativos Civis da União, R$ 153,0 milhões; Benefícios Obrigatórios aos Servidores, R$ 13,4 milhões); a Codevasf, R$ 4,5 milhões em assistência médica e odontológica; e os Encargos Financeiros da União, nos recursos sob supervisão do Ministério do Planejamento e Orçamento, R$ 70,7 milhões em benefícios obrigatórios. Perdem o Comando da Marinha, R$ 84,1 milhões em benefícios obrigatórios aos servidores, e os Encargos Financeiros da União, R$ 189,6 milhões — dos quais R$ 153,4 milhões saem da Reserva de Contingência Fiscal-Primária, que é o colchão que protege a meta, e R$ 30,2 milhões da Reserva de Contingência Financeira, que não entra no primário.
  • Portaria PGR/MPU nº 66, de 23 de julho de 2026 (DOU de 27/07/2026) — crédito suplementar de R$ 33,4 milhões dentro do Ministério Público da União. O Ministério Público do Distrito Federal e dos Territórios ganha R$ 30,3 milhões (Ativos Civis da União, R$ 24,1 milhões; Aposentadorias e Pensões Civis, R$ 2,0 milhões) cancelando R$ 26,9 milhões da própria Reserva de Contingência Fiscal-Primária e R$ 3,5 milhões da Financeira. O Ministério Público Federal troca obra por obra: R$ 3,0 milhões para a sede da Procuradoria da República em Natal, tirados de R$ 2,9 milhões da sede de Boa Vista e R$ 120,0 mil da de Vitória da Conquista.
  • Portaria SOF/MPO nº 320, de 24 de julho de 2026 (DOU de 27/07/2026) — R$ 150,4 milhões com ganho e perda nas mesmas unidades do Ministério da Educação: Administração Direta, R$ 132,3 milhões; Inep, R$ 16,2 milhões; Capes, R$ 1,9 milhão. O ato modifica fontes de recursos dentro da própria pasta — nenhum ministério perde dotação para outro.

Congresso

Esta é a última semana de esforço concentrado antes do primeiro turno, em 4 de outubro — a janela em que o PLOA 2027 começa a tramitar e em que as MPs em curso precisam ser votadas.

PLOA 2027 (Projeto de Lei Orçamentária Anual)

Enviado ao Congresso na noite de 31/08. Prevê receitas primárias líquidas de R$ 2,849 trilhões (19,27% do PIB) e despesas de R$ 2,83 trilhões (19,14% do PIB); pelo agregado, R$ 7,449 trilhões de receitas e R$ 7,239 trilhões de despesas, dos quais o orçamento fiscal soma R$ 2,933 trilhões, a seguridade social R$ 2,121 trilhões e o refinanciamento da dívida R$ 2,185 trilhões (Correio Braziliense — impresso — 01/09/2026, pág. 8). Salário mínimo proposto de R$ 1.741, acima dos R$ 1.717 do PLDO, com INPC estimado em 4,93% e ganho real de 2,3% referente ao PIB de 2024; o valor será ajustado por mensagem modificativa em dezembro, depois do INPC de novembro.

Emendas parlamentares

R$ 44,8 bilhões para as impositivas em 2027. Sobre o teto das emendas de comissão, os números divergem: o Estadão registra R$ 12,2 bilhões deixados fora do projeto e a serem incluídos pelo Congresso (pág. 22), enquanto a Agência Brasil informa limite legal de R$ 12,9 bilhões fixado pela lei complementar que formalizou o acordo entre Congresso, governo e STF (31/08/2026). Na LOA de 2026, o valor aprovado chegou a R$ 61 bilhões e caiu para R$ 49,9 bilhões após veto de R$ 400 milhões e remanejamento de R$ 7 bilhões.

MP da “taxa das blusinhas”

A comissão mista adiou a votação de 31/08 para hoje às 10h, depois que o presidente do colegiado, deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), suspendeu a sessão para alinhar o parecer com os presidentes da Câmara e do Senado. O relatório da senadora Leila Barros (PDT-DF) mantém o texto-base e inclui avaliação periódica dos impactos econômicos pelo Ministério da Fazenda, trimestral no primeiro ano e semestral depois. A MP perde a validade em 8 de setembro. A CNI estima perdas de R$ 21,8 bilhões e 109 mil empregos em risco com o fim da cobrança (Estadão — impresso — 01/09/2026, pág. 24). Lopes afirmou que cashback, desoneração e linha de crédito são mecanismos possíveis de mitigação, mas que a Lei de Responsabilidade Fiscal não permite a compensação neste processo eleitoral — só a partir de 2027.

MP do crédito para compra de veículos por taxistas e motoristas de aplicativo

Aprovada na Câmara em 31/08 e ainda pendente no Senado. O Tesouro repassa R$ 30 bilhões ao BNDES, que fará as operações de forma indireta. A relatora, deputada Amanda Gentil (PP-MA), acatou emendas que incluem transporte escolar e obrigam o comitê gestor a encaminhar relatórios ao Congresso. O prazo máximo de reembolso subiu de 72 para 84 meses e o teto do veículo financiável passou de R$ 150 mil para R$ 200 mil. Segundo O Globo, a operação não afeta a meta de resultado primário do governo (impresso — 01/09/2026, pág. 23).

Vaga no TCU

A renúncia do ministro Bruno Dantas, formalizada em 31/08, abriu vaga de indicação do Senado, e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), pretende levar hoje ao plenário o nome do ex-presidente do Congresso Rodrigo Pacheco. A votação exige quórum de 41 senadores, e Pacheco não deve passar por sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos (Valor Econômico — impresso — 01/09/2026, pág. 14). Dantas é o primeiro integrante do TCU a renunciar desde a regulamentação da Corte, em janeiro de 1893, e deixa o cargo aos 48 anos, com 27 anos de mandato pela frente (Estadão — impresso — 01/09/2026, pág. 2).

Os números

Tabela 1 Dívida, resultado primário, inflação, câmbio e juros
IndicadorValorFonte e dataVariação contra a medição anterior
Dívida bruta do governo geral82,51% do PIBBCB, julho/2026+0,58 p.p. (de 81,93%)
Dívida bruta do governo geral — saldoR$ 10,947 trilhõesBCB, julho/2026+R$ 137,3 bilhões (de R$ 10,809 trilhões)
Dívida líquida do governo geral69,22% do PIBBCB, julho/2026+0,28 p.p. (de 68,94%)
Dívida líquida do setor público69,08% do PIBBCB, julho/2026+0,60 p.p. (de 68,48%)
Resultado primário do setor público — fluxo do mêssuperávit de R$ 1,361 bilhãoBCB, julho/2026reversão do déficit de R$ 55,313 bilhões de junho
IPCA mensal0,07%BCB/IBGE, julho/2026−0,09 p.p. (de 0,16%)
Câmbio R$/US$ (venda, PTAX)R$ 5,1816BCB, 31/08/2026−R$ 0,0189 (de R$ 5,2005), queda de 0,36%
Selic — taxa efetiva13,94% ao anoValor Econômico — impresso — 01/09/2026, pág. 1estável ante a leitura anterior
Selic — meta14,00% ao anoValor Econômico — impresso — 01/09/2026, pág. 1sem alteração
Gráfico 1 Resultado primário do setor público em julho de 2026, por esfera, em R$ bilhõesFonte: Banco Central do Brasil, estatísticas fiscais.

Despesas fora da meta no PLOA 2027

Os valores excluídos do cálculo do resultado primário aparecem como R$ 64,7 bilhões no Estadão (pág. 21) e no Correio Braziliense (pág. 8), R$ 64,8 bilhões na Agência Brasil, R$ 65,6 bilhões no InfoMoney e R$ 65,7 bilhões no g1.

Referências do PLOA 2027 que contextualizam os fatos do dia: meta de R$ 73,2 bilhões (0,5% do PIB), com banda de tolerância de 0,25 ponto percentual do PIB para cima ou para baixo; superávit efetivo projetado de R$ 18,6 bilhões (0,13% do PIB); superávit ajustado de R$ 83,4 bilhões (0,56% do PIB). Pelo g1, a combinação de banda e exclusões permite déficit primário de até R$ 29,1 bilhões sem descumprimento formal da meta.

Na imprensa

PLOA 2027 e a meta de resultado primário

A proposta abre as primeiras páginas de quatro jornais. O Globo (pág. 1 e pág. 20) trata a previsão de superávit como sinalização de compromisso “em meio a dados ruins do cenário fiscal”. O Estadão (pág. 21) registra que o esforço para mostrar número azul ocorre “em meio a desconfianças no mercado financeiro e entre especialistas”, e cita o ministro da Fazenda, Dario Durigan: “Novos esforços serão feitos e podem melhorar o resultado tanto do lado da despesa, como temos sinalizado que isso será feito, quanto do lado da receita”. O Correio Braziliense (pág. 8) traz Durigan sobre a comparação com 2022: “Vamos começar a registrar superavit a partir de 2027 (…) uma trajetória de superavit que não pode considerar o dado positivo de 2022, porque há uma conta que foi paga em 2023, pelo atual governo”. A Folha (pág. 1) resume proposta, salário mínimo de R$ 1.741 e superávit de R$ 18,6 bilhões. Se confirmado, será o primeiro resultado positivo em cinco anos — o último foi o superávit de R$ 54,1 bilhões de 2022, obtido com o adiamento do pagamento de precatórios.

Dívida pública

Valor (pág. 4), O Globo (pág. 20) e Estadão (pág. 22) tratam a alta de julho. O Valor registra que o endividamento subiu 10,8 pontos percentuais no terceiro mandato do presidente Lula e que a alta do mês decorreu dos juros nominais apropriados (0,8 ponto) e das emissões líquidas de dívida (0,2 ponto), com efeito baixista de 0,5 ponto do crescimento do PIB nominal. O Globo acrescenta que os juros nominais somaram R$ 1,15 trilhão em 12 meses até julho — 8,67% do PIB —, ante R$ 941,2 bilhões (7% do PIB) nos 12 meses até julho de 2025, e que o déficit nominal acumulado em 12 meses chegou a R$ 1,239 trilhão (9,34% do PIB). O Estadão registra que, pelo conceito do FMI, a dívida bruta recuou de 95,8% para 95,4% do PIB. O Globo informa ainda que o mandato deve terminar com a maior emissão de títulos indexados à Selic em 20 anos: R$ 2,8 trilhões até julho, 48,2% do total emitido no período (R$ 5,7 trilhões).

Estatais e Correios

O Valor (pág. 1) abre com o déficit recorde das empresas federais e a leitura de que o resultado “reforça a percepção de deterioração fiscal”. Os números não consideram Petrobras nem empresas públicas do setor financeiro. Os Correios fecharam o 1º semestre com prejuízo de R$ 5,55 bilhões, alta de 30,36% sobre os R$ 4,26 bilhões do mesmo período de 2025; no 2º trimestre, o prejuízo foi de R$ 2,39 bilhões, 5,5% menor que em abril-junho de 2025 e 24% menor que no 1º trimestre (R$ 3,16 bilhões). A empresa tem empréstimo de R$ 12 bilhões garantido pela União e negocia outro, de R$ 7 bilhões; o primeiro programa de demissões voluntárias de 2026 teve pouco mais de 3.000 adesões ante meta de 10 mil.

Reforma tributária no Orçamento

O governo estima arrecadar R$ 636 bilhões com a CBS em 2027, sem informar a alíquota, que segue o rito da Receita Federal ao TCU e do TCU ao Senado (Agência Brasil, 31/08/2026). O Imposto Seletivo entra com previsão de R$ 41,9 bilhões, embora a regulamentação ainda não tenha sido enviada ao Congresso (Agência Brasil, 31/08/2026).

PIB e receita

O IBGE divulgou em 01/09/2026 alta de 0,5% no 2º trimestre, com agropecuária em 2,8%, indústria em 0,1% e serviços em 0,2%; pela ótica da demanda, investimentos subiram 1,2%, consumo do governo 0,4%, consumo das famílias caiu 0,4%, exportações caíram 0,8% e importações subiram 1,8% (Agência Brasil, 01/09/2026; g1, 01/09/2026).

Incerteza e confiança

O Indicador de Incerteza da Economia da FGV subiu 2,3 pontos em agosto, para 111,7 pontos, maior nível desde abril (117,2) e maior elevação desde março; o componente de Mídia avançou 2,8 pontos, para 111,6, e o de Expectativas recuou 0,8 ponto. Segundo a FGV, “a proximidade das eleições e o retorno da discussão em relação às contas públicas geraram esse aumento no componente de mídia” (Valor Econômico — impresso — 01/09/2026, pág. 6). Na mesma edição, o Índice de Confiança Empresarial caiu 0,5 ponto em agosto, para 91,1 pontos, segundo recuo consecutivo e menor patamar desde janeiro.

Mercado

O dólar à vista recuou 0,31%, a R$ 5,1797, e o Ibovespa subiu 1,0%, aos 177.419 pontos; no mês, o índice cedeu 0,33%. A taxa do DI com vencimento em janeiro de 2029 subiu de 14,155% para 14,19% (Valor Econômico — impresso — 01/09/2026, pág. 30).

Contas estaduais

A Folha (pág. 4) segue a série “Estado das Contas” sobre as finanças dos estados mais populosos, com a resposta da Fazenda paulista publicada na mesma página.

Quem divergiu

  • Estadão, em editorial de 1º/09 (pág. 1). Registra o “ceticismo de que num eventual quarto mandato o presidente Luiz Inácio Lula da Silva consiga reequilibrar as contas públicas” e descreve a previsão de superávit efetivo de R$ 18,6 bilhões como “esforço do governo para mostrar um número ‘azul’ no primeiro orçamento a ser executado no próximo mandato presidencial”.
  • Folha de S.Paulo, em editorial de 1º/09 (pág. 2). Sobre o aporte de R$ 6 bilhões nos Correios previsto no PLOA 2027: “A garantia da União e o aporte previsto ampliam o passivo fiscal. Cada empréstimo afiançado e cada capitalização transferem o ônus para o Tesouro e pressionam o resultado primário (não financeiro) de 2027. Recursos que poderiam reforçar o superávit ou financiar despesas essenciais serão consumidos para sustentar uma estatal que não para em pé.” O jornal defende a privatização ou, na falta de interessados, o fechamento.
  • O Globo, em editorial de 1º/09 (pág. 2). Chama os Correios de “empresa em estado terminal” e registra a sequência de prejuízos: R$ 597 milhões em 2023, R$ 2,6 bilhões em 2024, R$ 8,5 bilhões em 2025 e R$ 5,5 bilhões no 1º semestre de 2026. “Só faz sentido continuar a financiar os Correios se os recursos forem usados para prepará-los para a venda.”
  • Míriam Leitão, em coluna no O Globo de 1º/09 (pág. 20). “A dívida pública brasileira não caminha para bater no muro. Mas parece, pelos números da dívida bruta e pela intensidade do debate em torno do tema.” Sobre o PLOA: “É um pequeno azul de R$ 18 bilhões, ou 0,1% do PIB, no meio de um mar vermelho que é o endividamento público.” E cobra sinalização: “O ministro Dario Durigan tem garantido que o ajuste ocorrerá, e que será de dois pontos percentuais do PIB, mas será preciso ouvir isso do próprio presidente.”
  • Felipe Salto, economista-chefe da Warren e ex-diretor da IFI. Avalia que o Orçamento “está com despesas subestimadas, ao mesmo tempo que projeta uma queda de receita em relação ao PIB menor do que o projetado para este ano”. Comparando ao Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias do terceiro bimestre, aponta “um incremento de 0,32 ponto porcentual da receita e uma redução de 0,2 ponto porcentual da despesa” (Estadão — impresso — 01/09/2026, pág. 22). No Correio Braziliense (pág. 8), acrescenta que “a redução das transferências parece muito forte e precisaria ser explicada” e lembra o gasto adicional com o Fundo de Compensação de Benefícios Fiscais da Reforma Tributária do Consumo, de 0,2 ponto percentual do PIB.
  • Warren Rena — Felipe Salto, Josué Pellegrini e Daniel Ferraz. Sustentam que o resultado de julho foi beneficiado por efeitos de calendário ligados ao pagamento de precatórios em 2025 e que, sem novas medidas, a dívida poderá superar 100% do PIB no início da próxima década (Estadão — impresso — 01/09/2026, pág. 22).
  • Alberto Ramos, do Goldman Sachs. “A falta de controle de gastos comprometeu seriamente a credibilidade das metas fiscais e contribuiu para uma economia superaquecida e excessivamente endividada. Além disso, uma âncora fiscal fraca elevou os prêmios de risco fiscal, resultando na desancoragem das expectativas de inflação de curto e médio prazo” (O Globo — impresso — 01/09/2026, pág. 20; também em Valor Econômico — impresso — 01/09/2026, pág. 4).
  • Tiago Sbardelotto, da XP Investimentos. “Além da persistência de déficits primários, a taxa de juros implícita se mantém em níveis próximos aos verificados em 2016, período de crise econômica intensa. Essa tendência deve persistir na ausência de uma melhora estrutural na política fiscal que permita gerar superávits primários compatíveis com a estabilização da dívida pública” (Estadão — impresso — 01/09/2026, pág. 22). Sobre as estatais: “o resultado mostra tendência similar à de anos anteriores, com aprofundamento do déficit decorrente de uma política de aumento de despesas” (Valor Econômico — impresso — 01/09/2026, pág. 1).
  • Rafael Rondinelli, da MAG Investimentos, e Banco Pine. Rondinelli atribui os 10,8 pontos percentuais de alta da dívida no mandato ao “forte aumento dos gastos e a consequente manutenção dos juros em patamar elevado”. O Banco Pine projeta a dívida bruta em 83,3% do PIB em dezembro de 2026 e 87,9% do PIB em dezembro de 2027 (Valor Econômico — impresso — 01/09/2026, pág. 4).
  • André Esteves, do BTG Pactual. Classificou a Selic de 14% como ambiente “hostil” para a atividade econômica e disse que reduzir a taxa de 14% para 7% “equivale a 30 vezes qualquer programa social”. Apontou o “crescimento muito forte e rápido da dívida pública” como o “item fora do lugar” e afirmou que resolver a questão fiscal é o passo necessário para viabilizar a queda dos juros a um dígito (O Globo — impresso — 01/09/2026, pág. 20).
  • Bruno Moretti, ministro do Planejamento e Orçamento, respondendo às críticas. “Não ficaremos sob incerteza de aprovação ou não do Congresso de nenhuma medida para que a gente busque o centro da meta fiscal”, disse, indicando contingenciamento na base discricionária apenas se necessário e defendendo a desaceleração contínua das despesas obrigatórias como caminho. Afirmou também que a desindexação do salário mínimo “não está na ordem do dia” e que o controle fiscal não será feito “à custa dos mais vulneráveis” (O Globo — impresso — 01/09/2026, pág. 19).
  • Samuel Kinoshita, secretário da Fazenda e Planejamento de São Paulo, em artigo na Folha de 1º/09 (pág. 4). Contesta a régua da série do jornal sobre as contas paulistas: “O parâmetro usado, que fala em ‘piora gradativa’, foi o do resultado orçamentário; indicador registra decisão alocativa, não solvência”. Apresenta a dívida consolidada líquida em 124% da receita corrente líquida ao fim de 2025, ante limite de 200%; despesa com pessoal do Executivo em 41% da mesma receita, ante limite legal de 49%; disponibilidade de caixa líquida de R$ 29,4 bilhões; queda real de 42% em obrigações e restos a pagar entre 2022 e 2025; e supressão de 88 benefícios de ICMS, com o gasto tributário caindo de cerca de 33,5% para 30% da receita do imposto.
  • Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do BC. Disse que o país combina política fiscal expansionista com política monetária contracionista e que “a única saída agora, de fato, é o controle fiscal” (Poder360, 01/09/2026).
  • Marcos Troyjo, economista. Afirmou que o Brasil tem a “combinação mais perigosa” entre os emergentes do G20 — alta proporção de dívida sobre o PIB, juros elevados e serviço da dívida consumindo fatia do caixa público (Poder360, 01/09/2026).
  • José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, em artigo no Correio Braziliense de 1º/09 (pág. 11). Pede “responsabilidade e ponderação no debate legislativo” sobre o fim da taxa das blusinhas e a mudança da jornada, e registra que a inadimplência das empresas voltou a subir, a 3,2% na carteira ampliada, com 28% dos pequenos negócios declarando dívida em atraso.

O que observar

  • Hoje, 01/09/2026 — votação do relatório da MP da “taxa das blusinhas” na comissão mista, às 10h, com envio esperado ao plenário da Câmara na sequência; a MP caduca em 8 de setembro.
  • Hoje, 01/09/2026 — plenário do Senado deve apreciar a indicação de Rodrigo Pacheco para a vaga de Bruno Dantas no TCU; são necessários 41 votos.
  • 1º a 30 de setembro — prazo de adesão ao Simples Nacional com efeitos em 2027, antecipado em quatro meses pela Resolução CGSN nº 186, de 9 de abril de 2026, com incorporação de IBS e CBS ao regime; desistência até 30 de novembro.
  • Até 14 de setembro — Receita Federal deve enviar ao TCU a proposta de cálculo da alíquota de referência da CBS. O TCU tem até 30 de outubro para homologar, e o Senado até 15 de dezembro para fixar a alíquota que valerá em 2027.
  • 04/09/2026 — payroll dos Estados Unidos, referência para o câmbio e para a curva de juros local nesta semana.
  • Senado — a MP do crédito de R$ 30 bilhões para compra de veículos por taxistas e motoristas de aplicativo ainda precisa ser apreciada.
  • Dezembro — mensagem modificativa do salário mínimo de 2027, após a divulgação do INPC de novembro; o valor de R$ 1.741 pode subir se a inflação acumulada superar a projeção de 4,93%.
  • Tramitação do PLOA 2027 — a inclusão das emendas de comissão, que ficaram fora da proposta do Executivo, exigirá cortes em outras despesas; nos dois últimos exercícios, o valor final aprovado superou a previsão original.

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